19.1.09

despedida de olhos verdes

O relógio marca duas horas e quarenta e cinco da manhã. As pessoas passam por mim, são borrões carregando bagagens de mão. Sinto o cheiro de pão de queijo, café expresso, revistas e Humor da natura. Coloco a mão direita no bolso do casaco dele deixando dentro o barbante com moeda japonesa que ele me deu a dois anos e sempre esteve no meu pescoço. Os portões abriram. Tudo o que eu queria era sair daqui também. Mas nada é forte o suficiente pra me fazer sumir. Desaparecer, talvez durante a chuva, a água levando o meu corpo se desprendendo em partículas cada vez menores, até não sentir mais nada. Não falei nada desde que ele ligou dizendo que ia, sempre soube que ele iria um dia. E sabia uns dias atrás também. Ele sempre disse, depois da maioridade todos querem um lugar onde não se precisa fingir o desinteresse pela vida pra ser feliz. Ele me ligou e só deu tempo de arrancar o barbante do pescoço, vestir a camisa verde com o desenho cor-de-rosa e pedir o táxi. O avião só vai chegar no destino em doze horas, mas ele disse que vai ligar quando chegar. Tento esquecer que da última vez que ele disse isso demorou seis meses para o telefone tocar. Enquanto ele atravessa o portão a guirlanda remanescente no portão me distrai, então ele some entre os vultos apressados e eu vou aprendendo a esquecer o cheiro de Humor da natura, e o calor do bolso do casaco que vai se apagando da minha mão. O ano se foi, mas isso é só uma analogia, o ano pegou um avião para o Japão, e levou um pedaço meu, o ano tinha olhos verdes, ouvia Radiohead, e lia Nietzsche. Não quero um ano novo.
m.

10 comentários:

Renatinha disse...

Talvez longe ele sinta mais vontade de ligar... Normalmente é assim.
Engraçado, uma pessoa que amo muito foi pro Japão também...
Qual é a das pessoas com o Japão?
Nunca queremos um ano novo, mas somos obrigados não?

paradoXos disse...

é de um verdadeiro narrativo!!

5 estrelas!!

sucesso!!




abraços

Luiz Eduardo C. A. disse...

muito interessante e bonito o texto, gostei bastante. Desculpe não ter vindo muito mais aqui, mas enfim, o texto tá ótimo.

Ane Talita disse...

Aproveite a saudade do ano de olhos verdes....A nostálgia às vezes faz milagres...
nessas horas, nada com um se derramar em lágrimas etílicas e sair perambulando boêmiamente por aí...

beijos!

ana! disse...

ADOREI. Cara, muito bom isso. As metáforas, a simplicidade contida nas palavras e frases. Adorei.

xoxo

Brancatelli disse...

Um amigo meu e da Renatinha foi pro Japão no começo do ano.
Passei praticamente inteiros os 3 dias anteriores à viagem com ele, levei ele pro aeroporto, consolei quando a ficha dele finalmente caiu e ele percebeu que ia passar um ano e meio longe, me segurei até ele ir embora...
Mas eu sei que vou ficar incompleto até ele voltar.

Pq é isso que define a amizade...
Ela nos completa.

Camila Iara. disse...

hey, valeu a visita!
ÓTIMO TEXTO, OK :)

beijon.

Rodrigo Yoshizumi disse...

aee!
vim agradecer pelo comentário no meu blog... :)

sobre o texto, gostei bastante desse aí! gosto de textos com bastante riqueza nas descrições e vc faz jus a isso! hehe

boa semana!

Luiza F. Nunes disse...

Olá, obrigada por visitar o Expressão!!!

Quanto ao seu texto, simplesmente adorei.
Muitos detalhes bem descritos, o que me fascina muito!
Enfim...parabens!

Bjoks

A que parou para pensar ; disse...

nossa, é tão difícil quando aqueles que gostamos vão embora.. nossos textos (o que vc comentou) combinam nisso. acho que era sobre isso que você falou... eu também não queria um ano novo, ano novo, vida novo, rumos novos para nossos amigos. isso é horrível. ;/