4.7.09

sexta-feira

Virei as costas para tudo que me parecia não ter significado. Me esperava na banca de revistas com um folheto na manga e o coração debaixo do braço, comprou um maço de cigarros e meio palito de fósforo que não acendeu e me pediu algum isqueiro. Ofereci o azul. Saímos quase sorrindo, e eu me perguntado o que fazer. Um parque de diversões decadente se erguia minutos depois e das árvores em volta dos nossos cabelos caíam as folhas leves, secas, como de um outono que nunca existiu. A roda gigante tocou o céu àquela noite. Eu toquei o céu. Tocamos todos. A estranheza dos braços se acalmou com o álcool e a nossa imagem fez questão de criar novos pecados nas mentes alheias enquanto passávamos, olhos nos olhos, pensamento na lua. Em breve nossas inicias já estavam espalhadas em pontos da cidade semidestruída. Gosto de pensar que com tudo isso me desviei de problemas, com alguém do seu lado, é sempre mais fácil cumprir as missões que aparecem escritas no subsolo da consciência, como num videogame. Sua fumaça me entrava como ar de verão, como solos de guitarra das suas músicas favoritas. Me tornei tão tolo, quase desfiz em pedaços se não fossem seus olhos. Aquilo não era uma despedida. Ao contrário. Não era final de semana. Ao contrário. Foi um começo de linhas tortas e céu escuro.
m.

4.5.09

carrosséis

Tão leve, frio e torto. Segundos não passam de moscas quando estamos juntos, moscas coloridas e de voo corrido. De todas as manchas na minha parede, a em formato de pulmão perto da janela feita por seus pulsos melados de tinta, é a mais bonita. Leves são os lençóis que dividem parte de nossos sonhos e nossos quintais, tão distantes um do outro. Frios são todos os dias, isso é imutável, como nossos nomes nas árvores de outono. Tortos são meus passos quando distante de bengalas e ébrio de tristeza. Já li todos os romances que deixou sobre a mesa, li com esperança de que entre tantas palavras certamente encontraria alguma que me lembrasse teu nome. Todas as manhãs quando os pássaros me acordam, me pergunto se não seria mais certo se estivesse aqui, me pergunto se não, e também sobre os segredos da vida. Todos meus quadros tem as cores do céu da última vez que nos vimos, púrpura e suas variáveis. Tenho tatuado no meu peito o cheiro de cada segundo ao teu lado e finco as estacas em cada segundo distante, o que não significa dor, talvez o inverso. O que me torna só mais um apaixonado, ou algo que o valha. Onde você me fez chegar apenas com uma frase. O que não me importo em admitir.
PS. desculpa a ausência.
m.

15.3.09

inní mér syngur vitleysingur

Quando você vê seu próprio sangue se espalhando por um chão amargamente branco, você entende que em algum momento ultrapassou um limite.

O céu é cinza, mas as árvores são tão claras quanto em um dia de sol. Não consigo enxergar muita coisa, estou com os olhos quase totalmente fechados e o pouco que vejo é embaçado pela água da chuva. Consigo sentir cada partícula de água no meu rosto, cada respiração do vento nos meus cabelos. Eu corro, meus pés tem areia em cada centímetro, e descalço eu consigo sentir a grama sob os pés, a areia em outras partes, e a liberdade tão palpável dentro dos meus pulmões. Eu corro, e quase posso ouvir um piano tocando, notas crescentes, tão crescentes quanto a minha velocidade, a velocidade do vento, a força da chuva. Sinto explodir algo em mim, jorrar do meu peito algo denso, como tinta, tinta turquesa, amarela, verde, branca, rosa. Por cada lugar que eu passo fica mais forte, cada gota de chuva, cada porção de terra, cada parte de mim. Ainda sinto as partes que doem, e as recém suturadas. Entorpecido é tudo o que eu não quero estar nesse momento. O piano toca cada vez mais, alto, mais forte. Eu não vou parar de correr.

PS. Não acreditem em mim.

m.

4.2.09

último post

Tiro o ar dos pulmões como quem cava uma cova. O ar é denso, pesado, sai de mim como se não quisesse soltar. Eu deixei minha inocência faz um tempo, e eu não fazia idéia que a partir dali eu nunca mais voltaria tê-la. Um muro caiu dentro de mim, criei fantasmas que hoje dividem espaço com meus amigos humanos. Eu já disse que faria de tudo pra ser algum garoto normal e feliz que joga futebol, tem umas namoradinhas, alguém sem cultura que se masturba a noite pensando em peitos. Mas eu não posso, não posso voltar. E mesmo querendo ser tão simples, achando tudo a minha volta desprezível, eu sou um pouco pior e mais sujo que isso. Consegui Zoloft e algumas outras coisas, vou sair por um tempo. Existem Dias que fumo o dobro do que fumaria em semanas. Dias que eu deixo de existir, que meus pais procuram e só me encontram com os olhos vermelhos na casa de amigos. Não são bons dias, e eu espero melhorar, ou deixar de atrapalhar as pessoas que me amam. Sabe... sair de uma vez. Parar de cortar meus braços, de me auto-destruir tão devagar. De ser tão diferente das expectativas.

PS. Esse blog teve uma existência depressiva, e eu me desculpo sinceramente quanto a isso. Esse foi meu último post. Planejem bem antes de ter um filho, eles sempre vão te amar, mas às vezes eles não amam a si mesmos o suficiente.
m.

28.1.09

O gelo derrete na ponta da língua, logo o gosto vai sumir. Sempre some. Brindei à saúde, mas à saúde de quem exatamente eu não sei. Não à minha provavelmente. A blusa de lã azul vai evaporar e esses raios coloridos desenhados na parede também. Logo tudo vai sumir como sempre some, sob as nossas peles. O corpo formiga dentro das nossas roupas, somos quentes e frios, e sabemos como nos esconder. O que nem sempre é bom. Minha intensidade nem sempre é real, de vez em quando me forço a sorrir, a falar. Minha boca tá suja, acho que eu perdi os óculos, acho que eu preciso daquelas pílulas de novo. Cansei de me auto-medicar, mas eu sei que ninguém me receitaria o que eu quero. Eu te quero, tanto quanto eu quero sair daqui. Me livrar desse gosto na boca. No chão eu vejo meus óculos do lado de uma garota caída com um cigarro na mão esquerda. Eu parei de prestar atenção. Eu fico cada vez mais longe, o gelo continua na boca, mas eu não sei mais se vou sentir se ele derreteu. Não lembro de sair, mas sei que já estou do lado de fora. A rua vazia, a mente vazia. O gelo, o de sempre.
m.

19.1.09

despedida de olhos verdes

O relógio marca duas horas e quarenta e cinco da manhã. As pessoas passam por mim, são borrões carregando bagagens de mão. Sinto o cheiro de pão de queijo, café expresso, revistas e Humor da natura. Coloco a mão direita no bolso do casaco dele deixando dentro o barbante com moeda japonesa que ele me deu a dois anos e sempre esteve no meu pescoço. Os portões abriram. Tudo o que eu queria era sair daqui também. Mas nada é forte o suficiente pra me fazer sumir. Desaparecer, talvez durante a chuva, a água levando o meu corpo se desprendendo em partículas cada vez menores, até não sentir mais nada. Não falei nada desde que ele ligou dizendo que ia, sempre soube que ele iria um dia. E sabia uns dias atrás também. Ele sempre disse, depois da maioridade todos querem um lugar onde não se precisa fingir o desinteresse pela vida pra ser feliz. Ele me ligou e só deu tempo de arrancar o barbante do pescoço, vestir a camisa verde com o desenho cor-de-rosa e pedir o táxi. O avião só vai chegar no destino em doze horas, mas ele disse que vai ligar quando chegar. Tento esquecer que da última vez que ele disse isso demorou seis meses para o telefone tocar. Enquanto ele atravessa o portão a guirlanda remanescente no portão me distrai, então ele some entre os vultos apressados e eu vou aprendendo a esquecer o cheiro de Humor da natura, e o calor do bolso do casaco que vai se apagando da minha mão. O ano se foi, mas isso é só uma analogia, o ano pegou um avião para o Japão, e levou um pedaço meu, o ano tinha olhos verdes, ouvia Radiohead, e lia Nietzsche. Não quero um ano novo.
m.

8.1.09

tick tick boom

Tem vinho na minha camisa. HAPPY 2009 escrito com letras grandes em cores elétricas e fortes, nem tem cheiro de champanhe, não tem ninguém gritando coisas positivas, nem em beijos intermináveis por um ano cheio de amor e felicidade. Mesmo assim meu coração parece estar sendo eletrocutado, sinto todas as vibrações invisíveis que saem das paredes, as luzes piscando e batidas invadindo o meu peito se tornando uma onda de calor no meu corpo naturalmente frio. Passei parte do ano que passou sendo a pessoa mais pessimista que eu conheço, guardei todos os fragmentos de tristeza dentro de um pote transparente com todas as lembranças e detalhes de um ano que podia ter sido melhor. Sinto alguém falando comigo, algo que pareceu a palavra ‘ilusão’, mas eu deixo meus olhos fechados, chegou a hora de quebrar o pote transparente sem me machucar. Meus olhos mesmo fechados são ofuscados pelas luzes fortes, e o gosto de vinho na boca é a melhor coisa que já me aconteceu, a música toma uma forma familiar. Mr. Brightside do The Killers encerra o meu ano. Eu abro os olhos e está tudo do jeito que eu deixei, toda a desorganização, todos os rostos que eu conheço, os que eu não conheço. Ninguém parece triste, ninguém parece só, pelo menos hoje. Tem vinho na minha camisa, e medo nas minhas mãos. Mal-feito feito, o ano terminou. Eu não sou a pessoa mais feliz do mundo, mas eu tenho um ano inteiro pela frente.
m.

24.12.08

caos

O cheiro de pêssego rasteja entre os móveis, se impregnando em cada espaço vazio daqui, beijando a memória de cada amigo imaginário meu que já vagou por esse quarto. O cheiro forte, a brancura da manhã, o primeiro cd do Strokes no player, a memória reprimida da noite passada. Tudo me forçava a acordar, e era tudo o que eu não queria, dormir é a única droga entorpecente não-ilegal que eu conheço. O sol poderia arrancar minha cabeça com a claridade se eu chegasse mais perto da janela, não cheguei. Não me arriscaria a perder o fim de ano, fechei a perciana e tirei do player o cd que devia estar repetindo a mesma música de abertura desde a noite passada. Troquei por Evil do Interpol, isso me forçaria a ficar sombriamente bem-disposto. O dia tinha tudo para ser uma merda, mas que dia não é tão morbidamente promissor? Quase esperei o cheiro de café, mas lembrei que essa é uma semana solitária na casa vazia e abafada. Não tenho sucesso em reprimir memórias, o que é triste quando se vai passar pelo menos dez horas do dia em casa. O cheiro de café não viria, não tive paciência de fazer. Compre feito, uma das melhores frases do mundo pós-moderno e consumista. Abandono o cheiro de pêssego e saio depois de vestir a camisa azul amassada de costume. Minha mente devia estar um caos agora, mas não está. Talvez eu não ligue muito para o caos. Hoje é meu dia de folga dele.

PS. bom natal.

m.

18.12.08

japão

Meus olhos ardiam, como se pedras de gelo substituíssem minhas retinas. O vento era um fio gelado e preciso, podia cortar minha garganta e eu não me surpreenderia. Meus passos soavam ocos no chão seco e frio. Meus pés não me levam mais para os lugares que eu quero ir, mas essa noite tudo o que eu quero é sair. As paredes pareciam se fechar em uma lentidão claustrofóbica, e meus pensamentos vagando, pensando em todos os fatos que ocorreram nos últimos minutos. É uma merda as coisas mudarem desse jeito, finais de ano são turbulentos pra mim, não é uma tradição agradável. Continuei a me afastar de casa, já podia ver as luzes cansativas dos postes da rua principal. A última palavra que eu pronunciei essa noite devia estar carregada de raiva, mas não estava, a última palavra que eu pronunciei essa noite estava carregada de tristeza, e sem o meu consentimento. Ele vai para o Japão depois do natal. E tudo o que eu disse foi Não. Ele pretende me contar? Por que um país tão longe? Ele pretende me contar? Isso não vai mudar nada. Sei que depois dessa noite, a certeza que em breve eu vou ter um buraco no meio do peito não vai desaparecer. Meus olhos ardem com as luzes fortes e psicodélicas, já estou longe de casa, minha mente já vaga em lugares que eu não vou lembrar amanhã. Mas meus olhos ainda ardem, e eu não quero sair e sentir o vento frio, por que eu sei que ele ainda vai estar lá.

PS. Desculpa o post confuso.
m.

10.12.08

ébrio

Vesti a camiseta surrada com paciência. Quatro e meia da manhã, hora e dormir. Observei a mesa do quarto, dois livros, um de teorias alternativas sobre a origem da vida, outro sobre designers europeus e suas obras de vanguarda. Três revistas, duas questionam o governo do Barack Obama e em outra um Zac Efrom meio besta sorri alegremente. Uma caixa verde de pastilhas para garganta, um molho de chaves com um chaveiro de plástico em formato de Pokebola e um isqueiro laranja-vivo. Analiso os objetos, não lembro da existência de alguns, mas outros fazem tanto sentido para mim como o ar que eu respiro com freqüência desnecessária. Sou viciado em partilhas para garganta. Viciado em revistas semanais. Viciado em relembrar coisas que deviam estar esquecidas a tempos. Sentado na cama eu olho as fotos de nós dois na estante, mas não têm fotos, nem estante, nem nós dois. Não ligo. Analiso os objetos escuros e carbonizados que sobraram da minha última paixão. Agora olhando para dentro de mim, é difícil gostar do que eu vejo. Eu sei que esse cigarro não vai me entorpecer o bastante. E é com desespero que eu desejo boa-noite para os meu próprios olhos refletidos no espelho. Boas-noites são difíceis de achar, até mesmo na memória. Eu desabo, estranhamente feliz com a proximidade de um novo ano.
m.

28.11.08

no meio de tudo, você

O quarto tinha todas as paredes pretas, vários desenhos em alto relevo e quadros com fotos punks do ano 70. Os lençóis caiam no chão, eram brancos, os lençóis. Uma música saía do aparelho de som da sala, tinha batidas eletrônicas e fortes, faziam as paredes desabarem a cada movimento do meu pulso acelerado. Minha mente era uma explosão, as últimas horas correram como se as ampulhetas dos relógios fossem empurradas pelo ritmo do meu coração. Por quase um minuto pensei que o círculo laranja incandescente que despontava entre as nuvens fosse minha imaginação, mas era só o sol nascendo e tentando aquecer meu corpo. O sangue que se movia entre as minhas veias já tinha desistido. E eu já pensava ter virado uma estátua, quando a maçaneta girou. É desnecessário dizer que eu me apego rápido às pessoas, é desnecessário dizer que tudo o que elas dizem é ‘pode ficar o tempo que quiser’. E eu fiquei, o que é desnecessário dizer.
m.